“Os ‘sem poder’ estão a fazer História” - Entrevista a Saskia Sassen en Público.pt
A cidade tem a capacidade de permitir que os sem poder façam História porque em primeiro lugar há uma enorme diversidade de pessoas – 500 pessoas numa cidade não é o mesmo que 500 pessoas numa plantação, onde são iguais - e essa diversidade pode-se cruzar. Isso é muito importante. Mas quando falo da possibilidade dos sem poder fazerem História isso não significa que se tornem poderosos - mas podem fazer História na mesma.
Sim, já estão a fazer História. As pessoas em Telavive que demonstraram pela primeira vez as suas reivindicações sociais fizeram História. Nos Estados Unidos há um enorme grupo de pessoas que não sabia o que pensar sobre o actual sistema económico e que agora está a criar uma narrativa com a qual outros se podem identificar. Há todo o tipo de pessoas que agora sente que não está sozinha na sua luta pela sobrevivência, na sua raiva, e no seu sentimento de injustiça social e económica. Isto é imensamente importante.
Mesmo sabendo que não vão conseguir que a sua agenda seja reconhecida pelo sistema financeiro eles terão criado uma narrativa e uma explicação das coisas que permite o desenvolvimento de uma tomada de posição de princípios – agora há esta narrativa alternativa …
O que se pode fazer é reorganizar a produção. Porque é que temos que importar mobílias baratas da China? Vamos fazê-las nas regiões à volta das grandes cidades, vamos tornar a produção local - todos os países o têm. Devíamos também re-localizar os créditos, criar pequenas associações de crédito, pequenos bancos: porque é que os bancos de retalho têm que estar nas mãos dos grandes bancos? Há muito que se pode fazer, inclusivamente dentro do próprio sistema actual. Isso vai alterar o poder do mercado financeiro? Não. Mas pode ser um passo no espaço económico em que os locais têm mais controlo e haverá maior resposta às necessidades locais. Para os projectos locais é preciso bancos locais que os financiem. Os bancos locais dependem das pessoas locais, mas devolvem o dinheiro à produtividade local. Seria um pequeno passo para criar um outro espaço económico. Mas isto não é apenas uma questão económica, depende da política económica.



